segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Era só uma ideia, um pensamento.

Gotas de estímulo

Era só uma ideia, um pensamento.

Uma ideia; um pensamento; um primeiro passo seguido de outros; um quilômetro a mais, movimento contínuo. Juntos, podem nos levar até aonde alcançar a imaginação.

Era só uma ideia. De repente saiu do mundo da imaginação. O primeiro passo em movimento contínuo nos levou aonde sequer teríamos imaginado chegar. Nosso Everest de cada dia. De Polo a Polo. Estrada que leva, estrada que traz.

Pequenos ideias em movimento equilibrado têm esse poder, se agigantam, se tornam geniais. Por isso, a realização de um único pequeno sonho faz brotar centenas, milhares de outros ainda maiores.

A perspectiva explica muitas coisas, basta atenção. Mudar o foco, a posição, a distância, e logo o que era insignificante e disforme pode facilmente assumir uma forma definida que nos servirá de guia. Qualquer viajante experiencia essas mudanças na estrada.

Quais são nossas grandes ideias que transformarão vidas hoje?

Waldez Pantoja

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Seguir em frente

 

Parece não haver uma forma melhor de viver a vida que não seja seguir em frente. Até porque, há determinadas situações que não nos permitem dar um único passo atrás.

Tocar a vida, desprender-se dos apegos que nos impedem de seguir com muito mais vitalidade, motivação, sem crenças limitantes que nos aprisionam dentro de nós mesmos. Um movimento interno que nos torna livres. A viagem. 

Atentos ao movimento. Há um só caminho, aquele que construímos dentro de nós mesmos. Querer tornar permanente aquilo que é passageiro é perda de tempo. Livres dessa amarra a vida fica mais leve e suave para prosseguirmos.

Distorcer a visão é distorcer o caminho, a viagem, é atravancar as saídas, é atar os passos impedindo o deslocamento.

Nuvens densas encobrem o brilho do sol, ainda assim, em algum lugar, brilha para alguém sem que possamos perceber. Certos sentimentos nos colocam sob a mesma situação. Por sorte, com esmero podemos mudar, basta seguir em frente que a nuvem ficará para trás. Mudam os ares.

Quando não houver mais nada o que fazer, uma decisão pode mudar tudo, seguir em frente contornando os obstáculos.

Provocações 

Waldez Pantoja

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Anulação do Eu..


Continuamente travamos uma luta de anulação, embora muitas vezes não tenhamos tal consciência.

O apego a coisas passageiras, efêmeras, pode ser uma forma de anulação. Chega um momento em que o desapego se torna uma decisão obrigatória para continuarmos a caminhada. Viver a própria vida. 

Há um fluxo, mudanças continuas, e, o apego nos torna vulneráveis. Criamos grandes expectativas diante de coisas que apenas passam. Cheios de cobiças que transportam infelicidade e atribulações.

Às vezes preferimos a ilusão porque ela pode ser moldada de acordo com as nossas expectativas e perspectivas diante da realidade. Quando buscamos ter mais, ser dono daquilo que passa, terminamos nos tornando menos. Anulação!

Quando tornamos pública a vulnerabilidade do outro e escondemos a nossa, também isso é anulação do eu. O medo da própria essência encoberta enquanto se expõe o outro.

A perfeição que se busca e se cobra do outro, pode ser apenas uma forma de encobrir as próprias frustrações, as nossas imperfeições que nos são caras, terríveis e vergonhosas.

Se não nos tornarmos oclusos, haverá uma porta, uma fenda por onde a luz estrará, e assim, seremos por ela iluminados sem anulação alguma.

Waldez Pantoja

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O construtor de mapas

 

"Tu podes ir, e ainda que movas o teu corpo, é possível que permaneças inerte, parado, com a mente estagnada".

Certamente não queremos nos tornar apenas construtores ou leitores de mapas. Sabendo que o mapa não é o território, é tão  somente  uma representação, faz-se necessário a experiência do território real percorrido. É através da experiência da ativação do nosso sistema sensorial que percebemos os cheiros, os sons, os sabores, a textura das coisas, e assim, construímos uma visão consciente e não apenas automática diante da realidade exposta.

Percorrendo o território e não o mapa, aprendemos como nossas certezas se decompõem e novas dúvidas surgem. Uma oportunidade única para um novo aprendizado. Nenhuma viagem será a mesma, não importa o destino. 

Confrontados com novas ideias, terminamos por precisar exercitar a tolerância e buscar entender os diversos porquês da própria existência. A estrada e não o mapa nos proporciona tais experiências. Mudam os ares, mudam os cheiros, mudam os sabores, mudam as ideias que nos mantém confinados dentro de nossas próprias certezas.

Sob o domínio da escassez, perdemos um tempo precioso em busca de mais daquilo que já temos. E assim, a oportunidade das novas experiências se esvai, se dissipa. Nada será abundante, nada será pleno.

A curta viagem realizada vale muito mais do que aquela que jamais saiu do papel, que ficou somente nos traços do mapa, na mente onde abundam os devaneios.

"Porque o espetáculo da vida é viver". 

Waldez Pantoja

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O tempo das coisas


Muito já se escreveu ou se falou sobre o tempo, embora haja alguma dificuldade em explicar o que é o tempo, todos nós sabemos exatamente do que se trata. Assim pensava Santo Agostinho. 

Diz o conhecimento popular: "com o tempo tudo se resolve". Para muitas situações realmente assim funciona. Há na atualidade até quem defenda ser o tempo apenas uma ilusão, e que ele não existe. 

Lemos no Livro Sagrado em Eclesiastes: "tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu". Assim pensando, não há nenhum mal que dure para sempre. Nenhum sucesso será permanente. Atingindo o seu limiar, as coisas tendem à acomodação.

Por que deveríamos atropelar o tempo das coisas? A fruta amadurece no seu próprio tempo, se não colhida, estraga. Há tempo para tudo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Qual devemos alimentar?

Dentro de nós há dois lobos; um é o lobo do ódio, o outro, o lobo do amor. Nossa vida será guiada pelo lobo que mais alimentarmos.

Embora o lobo do ódio renda mais manchetes, o do amor tem sido cuidadosamente educado pela evolução para ser mais forte – e mais fundamental para sua natureza mais profunda. (Rick Hanson, 2012).

Certamente o mundo abriga muito mais pessoas boas do que pessoas ruins, más. Embora as boas estejam sempre ao nosso redor, são as pessoas más que nos despertam a atenção. Isso ocorre por uma questão evolutiva de auto preservação.

Detectamos o perigo é as ameaças com muito mais eficácia do que qualquer outro evento. Dessa forma, nós mantemos vivos e alertas evitando possíveis danos futuros. Quase sempre nossa previsão sobre eventos negativos futuros nãos se concretiza. E, caso ocorra, nunca apresentam a mesma intensidade imaginada.

Basta olharmos para nossos próprios amigos. A grande maioria é realmente formada por gente da melhor qualidade. 

"O ser humano não presta mesmo". Frase dita por um ser humano que se considera um bom alienígena.

Waldez Pantoja

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A relação respeitosa


Todo relacionamento deve ser levado a sério, selecionado, filtrado, porque toda relação de alguma forma influencia nossa vida. Ninguém sai impune. Influenciamos, mas também somos influenciados a todo instante.

Perguntas são sempre melhores do que respostas apressadas. Buscar compreender é sempre melhor do que julgar apressadamente a realidade mental construída.

Nós somos únicos, e únicos também são os demais. Cada um sendo tratado respeitando a própria individualidade. A cada dia nos tornando melhores em nossa convivência; sabendo que ninguém poderá nos tornar seres evoluídos, apenas nós mesmos temos esse poder. 

Pode-se dizer que o respeito é a máxima na construção de relacionamentos saudáveis.

Waldez Pantoja

terça-feira, 30 de novembro de 2021

O que nos pertence?

 


Aquele que conquista o agora garante o futuro. A dor é inevitável, o sofrimento nem sempre, pode até ser uma escolha. 

A vida pode ser plena, pois é cheia de grandes oportunidades. Pare um pouco, observe, escute, mude o foco. Não precisamos sair em busca de nada, basta viver o agora, a grande dádiva da vida sempre está no momento presente. O que pensamos ser pequeno, insignificante, quando vivido intensamente se agiganta milagrosamente. 

Nada que estiver fora da nossa mente é nosso; o carro novo, a casa, o cônjuge, nem os filhos. São as nossas experiências, as nossas lembranças que realmente nos pertencem até decidirmos descarta-las, substituí-las.

Os desejos, o apego, a incessante vontade de controlar o que está a nossa volta, a ansia pelo poder e dominação, podem na verdade ser a fonte de insatisfação, sofrimento e muita frustração.

O aprendizado, a mudança, a inconstância, estão sempre presentes em nossa vida. Às certezas de hoje podem facilmente se tornar dúvida diante de uma nova experiência. Isso às vezes nos deixa aflitos sabendo que o controle das coisas fora de nossa mente podem não ser de nossa competência.

Porque o espetáculo da vida é viver.

Waldez Pantoja

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Ser ou estar?

O verbo _to be_ em inglês significa ser ou estar. E é aí que a nossa língua portuguesa ganha um contorno que a deixa mais bela ainda. Em inglês essa diferença entre ser e estar necessita de complementos que nosso idioma já traz pronto.

Pensando assim, não é difícil entendermos que nós não somos, por exemplo, um estado emocional, apenas estamos. Também não deveríamos categorizar pessoas devido a um determinado estado emocional, seja ele efêmero ou repetitivo. Até porque, nós mesmos somos repetitivos em nossas emoções. 

Não somos zangados, tristes, infelizes, impacientes, mas sim estamos em alguns momentos, e logo tudo passa. Naturalmente que as nossas emoções se repetem e se repetem sempre. 

É a autoconsciência que pode nos colocar no controle de nossas ações diante de uma emoção flagrante que se revela sem nossa anuência consciente. Algumas mais intensas, outras menos.

Waldez Pantoja

As relações

O sujeito procura o psiquiatra e diz: “Doutor, meu irmão é doido— ele acha que é uma galinha”. E o médico diz: “Bem, e por que você não diz a verdade para ele?”. O sujeito responde: “Até poderia, mas preciso dos ovos”. 

Quando nós precisamos dos ovos, alimentar as galinhas se torna uma necessidade.

Relacionamentos nem sempre são totalmente racionais, talvez sejam até absurdos. Mas, sem os relacionamentos, perdemos muito mais. No entanto, precisamos aprender a filtrar tais relacionamentos. Não damos conta de nos relacionarmos com todos o tempo todo.  

Então, como dizem por aí, trate os outros da maneira como...

Poucos conseguem completar a frase de maneira que faça sentido na vida dos outros também, e não apenas na nossa.

Pode haver benefício em tudo, basta excluímos os malefícios. E isso, quase sempre começa com uma atitude mental.

Prof. Waldez Pantoja

sábado, 9 de outubro de 2021

Contra ou a favor da tortura?

 

Na verdade as pessoas se posicionam contra a tortura daqueles que consideram inocentes. Ou contra como um ato de se obter uma confissão de alguém injustiçado. Todos somos contra. Ninguém é a favor disso. No entanto, há outros tipos de tortura, e muitas vezes, fazemos vista grossa.

Avançamos muito, e, esse meio não faz mais sentido algum. Nunca fez.

Hoje temos investigação aprofundada, respaldo até de exames de DNA, e não apenas os testemunhais sujeitos a erros que condenam inocentes. 

Sempre que se condena alguém, e esse vai parar em uma cadeia, em um sistema desumano, não sendo seu ambiente diário e usual, trata-se também de tortura, seja ele culpado ou não. Sofrem tortura todas as vítimas de crimes, sejam quais forem eles. Não enxergarmos!

É torturado também aquele que, por vício do sistema não consegue um emprego, não alimenta sua família, tem uma concorrência desleal no mercado. Ainda é tortura quando o estado arrecada e não devolve o arrecadado em benefício do necessitado que paga antecipadamente pelo dito "benefício". Todos nós sofremos terríveis torturas todos os dias promovidas pelos governantes por nós legitimados.

Imaginemos alguém que necessita de um atendimento por motivo de doença, mas morre antes que consiga ser atendido. Sofreu tortura ele, e a família continua sendo torturada até após a morte do familiar. Isso também é tortura que mata centenas de milhares em nosso país todos os dias.

Aquele que não consegue estudar porque faltam vagas ou porque as instituições particulares são caras, esse também sofre tortura dada a exposição a um sistema desigual. Há ainda os que deixam a família, a cidade, o estado, o próprio país em busca de dias melhores. Paga-se um alto preço.

É neste cenário que se fundamenta a tortura social. Ela não visa obter uma confissão de um delito qualquer, quem sabe um crime, objetiva-se apenas manter o controle social enganando o povo com alguma migalha que cai das mesas dos governantes por nós legitimados. Bolsa qualquer coisa. Promessas. Nesse tipo de tortura não há confissões, apenas reclamação, algum desconforto que logo é seguido por um período de acomodação sem grande repercussão.

Conclui-se que, de maneira velada, estamos expostos a um padrão de tortura com o qual pouco nos importamos. A tortura social mata muitos todos os dias. Embora consigamos ignorar e acreditar que só acontece com o outro.


Basta!

domingo, 3 de outubro de 2021

Pessoas boas em lugar ruim

PESSOAS BOAS COMETEM ATOS CRUÉIS?

O Professor Dr. Philip Zimbardo da Universidade de Stanford fez esta pergunta, e para responder, conduziu alguns experimentos controlados. Os resultados são surpreendentes.

O experimento de 1971 consistia em criar um ambiente de uma cadeia e recrutar pessoas comuns para assumirem diversas funções. Alguns seriam os prisioneiros, outros seriam os guardas, investidos de autoridade e poder.

Para espanto dos pesquisadores envolvidos, o ambiente se tornou tão perigoso, que o experimento precisou ser cancelado em apenas seis dias após o início. 

Os guardas se tornaram tão autoritários, que logo começaram a cometer vários excessos. Negavam e retiravam direitos dos prisioneiros. Obrigavam todos eles a se submeterem a vários atos degradantes.

Zimbardo concluiu que: "Qualquer ato praticado por um ser humano, por mais horrível e cruel que seja, pode ser cometido por outro também".

Situações extremas podem levar pessoas boas a cometer atos cruéis, a depender do contexto, pressão social a qual estão inseridas, ou ainda o estado emocional momentâneo.

Stanley Milgram, que era colega de Zimbardo, também chocou muitos quando conduziu o experimento que ficou conhecido como "O choque de Milgram". Pessoas comuns, aplicavam choques em outra pessoas, apenas porque receberam uma ordem. (O experimento era controlado e os choques eram falsos).

Difícil saber com certeza, o que leva uma pessoa de maneira inesperada, cometer um ato de crueldade que choca a todos. Principalmente quando não há nenhum antecedente de peso, que possa ser levado em conta.

Também não é difícil encontrarmos pessoas que consideramos boas, ou que ela mesma se considera boa, desejando a morte ao outro que tenha cometido um delito qualquer. Se tivesse a oportunidade, talvez fosse igualmente capaz de cometer um ato cruel para aplacar a própria raiva. Um ato mais próximo da vingança do que da “justiça”. Princípios morais que se adequam a situação.

Naturalmente muitos dirão: “se cometeu um ato cruel, então não era uma boa pessoa”. Condenado!


Waldez Pantoja

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Novas crenças


Novas crenças

As crenças são sempre um fenômeno interessante. Ninguém acorda um dia e diz: sabe, a partir de hoje vou crer nisso ou naquilo. Ou ainda, vou acreditar em Ets e fadas. A crença apenas surge, é uma construção quase sempre inconsciente.


A partir daí vamos cada vez mais nos comprometendo com ela. Às vezes, também deixamos de acreditar em algo quando passamos por alguma frustração; o desejo, o pedido, a necessidade não atendida, ou mesmo uma doutrinação.


Um, dois, três ou mais eventos podem ser apenas coincidência. Quando as evidências se acumulam, facilmente pode ser visto como tendência. E assim, fundamentamos uma nova crença e uma verdade é estabelecida.  


O viés confirmatório, ou viés de confirmação,  é  um comportamento que adotamos em busca de eventos que confirmem a nossa  crença, ignorando tudo, ou quase tudo que venha a contradizê-la. Tornamos-nos "cegos" àquilo que possa contradizer a nossa crença. 


As redes sociais e os algoritmos atendem perfeitamente ao fenômeno.


Alguns exemplos:

- A esposa engravidou; parece que todas as mulheres do mundo ficaram grávidas.

- Comprei um novo carro da marca X; a cidade inteira parece ter o mesmo carro, na mesma cor.

- Aquela é uma pessoa má; de repente, de alguma forma os atos começam a confirmar a crença já fundamentada.

- Ele é culpado; logo inúmeras evidências surgem.


Segue a vida. Ora influenciamos e damos suporte a novas crenças. Ora sofremos tais influências e fundamentando novas crenças arbitrárias. Buscamos e damos sentido às coisas, e assim, "verdades" se estabelecem.


Waldez Pantoja

Aqueles


Aqueles...

Aquele que mais grita é o que menos ouve.

Aquele que domina a si mesmo, não busca dominar os outros.

Aquele que melhora a si mesmo, melhora o mundo.

Aquele que menos critica os outros, mais acredita em si mesmo.

Aquele que mais cuida dos deveres, menos cobra 'direitos'.

Aquele que mais faz, menos exige.

Aquele que aprende a viver a própria vida, não busca viver a vida dos outros.

Aquele que ama a si mesmo, também aprende a amar o outro.

Aquele que mais doa, na verdade é o que mais ganha.

Aquele que sempre impõe nunca se dispõe.

Aquele que pensa saber muito é o que menos sabe.

Aquele que desvia o olhar não acerta o alvo.

Aquele que fere também é ferido e não sai impune. 

Wadez Pantoja

A receita é a mesma, o bolo não

A receita é a mesma, o bolo não.

Em busca de soluções rápidas, soluções mágicas, muitas vezes se embarca em uma viagem recheada de erros; querer levar a vida seguindo uma receita como se bolo fosse, mas nem mesmo uma receita seguida à risca, irá garantir que todos os bolos sairão do forno da mesma forma.


Os fatores de influência em nossas vidas são diversos. O medicamento que cura um pode facilmente matar o outro. Não há uma receita geral para tudo e todos. Querer que os resultados sejam iguais para todos, é se deixar enganar pelas famosas receitas de bolo.


Segundo Bessel Kolk, ninguém é criado em circunstâncias ideais – se é que sabemos que circunstâncias são essas.


O mesmo ambiente pode oferecer as mesmas experiências que serão decodificadas e assimiladas de forma distinta a depender de quem as vivencia. Nosso curso de vida, a cultura, os amigos, parentes também têm enorme influência na maneira como assimilamos o mundo que nos cerca. 


Nem sempre o que funciona para um, renderá os mesmos frutos para o outro. A receita de bolo é para bolo, ainda assim, nenhuma garantia há de igualdade nos resultados.


Waldez Pantoja

domingo, 19 de setembro de 2021

Meu mundo, meu mundo

Meu mundo, meu mundo.

Cada um de nós tem um mundo inteiro dentro de nós. Nosso próprio mundo. Como podemos achar que temos a capacidade de viver o mundo do outro? Nem compreendê-lo é possível, porque as ferramentas que usamos para decodificar o outro, são as mesmas que usamos para justificar a nós mesmos. Nesse sentido, nos encontramos limitados dentro do nosso próprio eu. Com diálogo e boa comunicação, pode-se chegar a um acordo de paz e boa convivência.

Culpar o outro não nos torna melhor, apenas nos faz sentirmos bem momentâneamente, mas logo passa.

Tanto o passado consciente quanto o inconsciente podem influenciar nosso presente, jamais determiná-lo. A não ser que assim queiramos ou nos sintamos momentaneamente incapazes de assumir o controle da própria vida, usando o determinismo como justificativa para o comodismo mórbido.

Waldez Pantoja

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Você confia 100% na sua memória?

 


"Eu vi, eu ouvi, eu tenho certeza". Afirmações bem comuns no momento de um relato testemunhal. Mas, nossa memória não parece tão confiável o quanto pensamos ser. Por conta dessa falibilidade, injustiças podem facilmente ser cometidas.

Para quase tudo na vida dependemos da nossa memória. Nossas lembranças, a consciência do que somos, nossas escolhas, aprendizado, tudo passa pela nossa capacidade de armazenamento da informação.

Compreender a memória requer certo aprofundamento para realmente saber do que se trata. Um inquietante "fenômeno" que só nos damos conta de sua existência quando ela falha.

"Nada há no intelecto que não tenha estado antes nos sentidos" (MARSHALL, 1988). A memória é um sistema ativo de aquisição, retenção, organização, modificação e evocação da informação.

Falsas memórias podem facilmente ser implantadas, ou mesmo desenvolvidas. "Lembramos" de coisas que na verdade podem nem ter acontecido de fato. Isso ocorre porque a cada evocação da informação, os fatos podem ser alterados de maneira a fazer sentido de acordo com o contexto presente.

Um artigo da Psychological Science descobriu que 71% dos participantes expostos a determinadas técnicas de entrevista, desenvolveram falsas memórias sobre terem cometido um crime quando eram adolescentes. Na realidade, nenhum dos participantes teve contato com a polícia durante a faixa etária em questão. Nunca cometeram crime algum.

Deve-se ter cuidado ao buscar evidências em relatos de crianças. Somente um especialista deveria realmente conduzir tais procedimentos. Isso porque, a depender da forma como o interrogatório acontece, a criança facilmente desenvolve falsas memórias e passa a creditar em seu próprio relato.

sábado, 17 de julho de 2021

Previsivelmente imprevisível


Thoreau escreveu: “O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você troca por isso, imediatamente ou a longo prazo”. 

O grande filósofo ético Hans Jonas insistiu, é graças à nossa consciência da mortalidade que os dias contam e nós os contamos.

A vida é frequentemente brutal, repleta de mortes e perdas repentinas, e nossas emoções evoluíram para nos alertar sobre esses perigos e nos manter alertas. Sempre há outra maneira de ver as coisas. Mudar a visão das coisas pode ser imensamente útil.

A vida envolve perdas e ganhos. Certas coisas fazem parte do pacote. De fato, se tivéssemos certeza absoluta de tudo, ficaríamos entediados com a completa previsibilidade. Poderíamos até começar a ter necessidade de incerteza.

Ninguém é criado em circunstâncias ideais – se é que sabemos que circunstâncias são essas. Assim, o adversário não é outro senão ‘o outro dentro de mim’.

ZYGMUNT BAUMAN: A recompensa “está sempre no horizonte”– ou seja, creio eu: “sempre à vista, mas não ainda ao alcance”. Nunca foi fácil ser humano, nem deveria ser, e cada época tem seus próprios e novos desafios.

Recortes: Waldez Pantoja

quarta-feira, 2 de junho de 2021

SEM TEMPO PARA TANTO TEMPO

Houve um tempo que não era nosso tempo. Passado desejado por muitos cheios de tanto presente, quase sempre ausentes.

A insistente e constante busca da perfeição, também se torna enfadonha, passa, ilusão.

Basta um clique, não perca tempo. É o que dizem muitos. Talvez realmente haja ganho nas perdas e perdas nos ganhos. A tecnologia dos ganhos, nos rouba tempo. Onde está o foco? É para lá que iremos.

A mente encanta, desencanta. Constrói, desconstrói. Cria, e logo apaga tudo para recomeçar o ciclo eterno das mudanças. De alguma forma tudo será eterno, reintegrado e reabsorvido pela natureza. Cada indivíduo fará parte de um novo e desconhecido conjunto agregador.

Antes de virmos a ser, houve um tempo que não nos pertencia. Quando partirmos, a eternidade se manterá, mas também não nos pertencerá. E ínfimo é o intervalo da existência diante das mudanças. 

Para a sorte de todos não haverá amanhã. Nunca houve esse tempo. Há esperança, constância, para muitos distância. Também não haverá lembrança.

Tudo dura enquanto estiver presente, presente na mente, que de repente, sem nos darmos conta se torna ausente.

quarta-feira, 24 de março de 2021

QUANDO ACORDARMOS

 


De repente percebemos que não precisamos de muito para viver. Que a busca por mais não satisfaz. Que o próximo precisa mais de proximidade e assiduidade, dignidade. 

De repente tudo muda, tudo se desnuda; não se desiluda, não espere dores agudas. Os dias seguem sua jornada e a oportunidade perdida não será estornada.  

Hoje é dia de se acalmar, esperar, respirar para poder caminhar. O sol nasce, se põe, depõe, testemunha, às vezes sussurra brandura, também cura.

Hoje é dia de erguer a cabeça, sem tristeza, com certeza. Dia de desfrutar um pouco mais, observar a natureza que esbanja beleza. Dia de tornar-se uma fortaleza, com delicadeza. 

Aquele que partir deverá deixar muito mais do que levará; amizade, cumplicidade, fraternidade, confiabilidade, amor e muita saudade. Assim, manterá viva a própria eternidade.

Em algum lugar

Quanta pressa para julgar, demora para amparar. Quanta pressa para impedir, demora para acudir. Choque de ideias prontas a colidir.


Faz, desfaz, lança e nada alcança, quase tudo lambança. Estardalhaço que causa grande embaraço. Perdas, estragos, medos, talvez enredo de bêbados. 


Deve existir um meio termo, quem sabe um lugar onde os dias e as noites não sirvam apenas para divagar, quem dera fosse um afável acariciar.


Luto contra o luto, que resoluto, quero acreditar, que todos descansam em um bom lugar. Difícil não aceitar ou até mesmo ignorar.


Amanhã quando todos partirmos, outro assumirá o nosso lugar. É de bom alvitre não duvidar, pois, aquilo que construímos, isso é o que há de ficar.

quinta-feira, 11 de março de 2021

A ESTRADA DO MEDO

 

Pobre ser. O mais temeroso dos homens. 

Ele nasceu em um pequeno território, nunca foi além de suas próprias fronteiras. Muitas delas eram muros mentais que ele mesmo construiu. Cresceu limitado; sempre consumindo os mesmos alimentos, falando o mesmo idioma, andando pelos mesmos caminhos, cultivando os mesmos amigos com as mesmas opiniões que não mudam jamais. Seu mundo era tão pequeno com muros tão altos, que nada além podia ser vislumbrado. O pouco que aprendeu, nada compartilhou. Mesmo assim, cultivava muitos sonhos, sonhos que mais pareciam devaneios desordenados.

Temeroso sempre tinha boas respostas na ponta da língua quando o assunto era alguma realização significativa. "Ainda não é o momento certo"; "o dia ideal vai chegar";  "eu sei que as condições irão melhorar"; pobre temeroso, não sabia que as condições ideais estão dentro de cada um de nós. É lá que elas surgem, mas também onde são condenadas à morte, algumas morrem de inanição.

Certo dia, muito doente, já velho e desanimado, Temeroso percebeu que havia cometido um grande erro. - "Ah, se eu soubesse!", disse ele. Passou a vida com medo de errar, se preparando e acreditando que o mundo se resumia a seu restrito território. Cheio de grandes certezas inabaláveis, Temeroso desapareceu sem deixar vestígios.

Cada época com seus próprios medos. Adequação que também pode variar entre pessoas. O que não se pode fazer é desprezar essa emoção por completo, pois o risco seria iminente. Viver refém do medo nos impede, nos afasta de grandes conquistas. O medo de perder aquilo que não nos pertence também nos torna pequenos demais e incapazes. O que realmente é nosso?

Vá em paz, nobre e acomodado Temeroso Ser. Que sua vida sirva de exemplo a não ser seguido jamais.


Waldez Pantoja

terça-feira, 9 de março de 2021

O que a religião roubou de mim?

Achei bem interessante a pergunta: "O que a religião roubou de mim?". Na verdade, a frase é o título de um livro. O esposo de uma ex-funcionária minha o escreveu, mas eu mesmo nunca o li. Fiquei a imaginar sobre o que exatamente se tratava o tal livro. Hoje, de repente, o tema surgiu na minha mente novamente.

Não seria difícil imaginar uma colocação para os dias atuais. Imaginar sobre a capacidade que tem o ser humano em desvirtuar, por exemplo, uma mensagem, uma informação, uma ideia, de maneira tal, que, a própria originalidade da mensagem seja mudada, assumindo novos rumos.

Exemplos não faltam, em especial, em relação ao que hoje se chama Cristianismo. Um Cristianismo que não se coaduna com os próprios escritos ditos sagrados. O que se apresenta é uma adequação da mensagem original, de maneira tal, a fazer sentido a necessidade daquele que busca novidade, melhorar a vida financeira, e, a tal felicidade também mal conceituada, entre outros. Levar vantagem é o lema.

A pechincha sagrada. Negociata sagrada. Troca sagrada. A fé é comercializada por módicas quantias. Uma bíblia pode custar até dois mil reais em uma campanha para arrecadar fundos. Um investimento sagrado, que, se der resultado positivo, parabéns, se não, faltou fé, afinal, ela move montanhas. Aí, mais empenho será necessário, digo, mais dinheiro investido.

O próprio Jesus, o Mestre, dizia não ter posses, não ter sequer onde repousar a cabeça, ou seja, financeiramente, era pobre mesmo. O apóstolo Paulo, grande propagador da mensagem original, tinha que trabalhar duramente, e também, não demonstrava ou ostentava nenhuma riqueza, não orientava aos seguidores que buscassem tais riquezas. Aliás, o lema era acumular coisas muito mais nobres, tesouros que nem a traça nem a ferrugem corroem. Os discípulos convocados deixaram tudo para seguir o Mestre.

E hoje? O que se tem são lobos devoradores, vivem no meio das ovelhas que sofrem de miopia espiritual. Cegos, não conseguem fazer distinção entre fé e golpe. Líderes religiosos que mais parecem grandes caloteiros aplicando o famoso golpe do paco. Ambos com sua parcela de culpa. O que engana quer lucrar, o enganado, benefício rápido e lucro financeiro também.

A promessa de prosperidade atrai muitos dispostos a investir pesado. Prometem tanto quanto qualquer político em época de eleição, claro, o ganho maior será após a morte. Reclamar fica difícil.

Não ajunteis para vós tesouros na terra onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam, mas dizem os grandes líderes: invista e tenha dois carros na garagem, mansão, fazenda, um grande comércio. Muito, muito dinheiro.

O que a religião roubou de mim? Nada! Pois essa inclinação a mensagem deturpada, falsificada, travestida de Cristianismo não me atrai. Quem sabe para alguns, tempo e a capacidade de pensar por si mesmos tenham sido roubados.

Waldez Pantoja

sábado, 6 de março de 2021

Segure firme!

Segure firme! Segure firme! Esta era a voz que um aventureiro ouvia após um salto duplo quase fatal em uma asa delta. O instrutor simplesmente esqueceu de afivelar  o novato aventureiro, e por pouco a aventura não terminou em tragédia. Com muita sorte e força no braço, ambos pousaram em segurança.

De outra feita, em uma escalada à noite, um Alpinista caiu do alto de uma montanha muito fria. Como a corda de proteção estava presa ao homem, ele apenas ficou pendurado, não tocando o chão. De algum lugar uma voz ecoava dizendo: - "corte a corda, corte a corda". Mas sabe-se lá porque, o homem não cortou a corda. Talvez tivesse medo, estava muito escuro e ele não via nada abaixo dele. Pela manhã, o alpinista foi encontrado morto e congelado a apenas alguns centímetros do chão.

Duas situações distintas. Para salvar a vida, um teria que segurar firme. Já o outro, deveria soltar, largar-se, cortar a corda que o prendia. Assim é a vida. Às vezes, temos que nos agarrar, outras vezes, soltar o que nos prende, o que nos impede de seguir em frente. Algumas vezes experiências passadas nos salvam. Outras, nos mantém em apuros porque o paradigma estabelecido é forte demais para ser alterado.

Boécio dizia que a natureza da sorte é ser instável, não há nela nenhuma constância. Não podemos contar com ela sempre. Sorte é sorte! Thomas Hobbes acreditava que a segurança era muito mais importante do que a liberdade. Talvez por isso, o Alpinista não tivesse ousado cortar a corda, e por isso, morreu seguro.

Viver exige um contínuo estado de transformação, mudança e alternância. O que cabe em uma situação, talvez não caiba em outra. A vida em segurança é limitada pela fronteira da liberdade. Quem a ultrapassar se tornará livre, mas não seguro.

Limitado sim. Incapaz, não.

Qua a sua limitação? Um viajante cego.

Hoje eu acordei cedo, saí da cama e fui para uma rede em outra área. Embalei-me um pouco, e logo me dei conta de que eu não estava mais ali.

Foi como se eu tivesse deixado meu corpo mais uma vez, e assim viajei. Senti-me sem peso algum, verdadeiramente livre. No horizonte vi um solitário viajante em sua motocicleta e logo tratei de esperá-lo passar. Acenei e ele parou. Perguntei de onde ele vinha e para onde ia. Sem titubear ele disse que vinha da vida e para a vida estava indo. Uma vida melhor, na estrada.

Após duas aceleradas vigorosas, o homem desligou a moto e sorriu.

- Viaja só, não tem medo? Perguntei. A surpresa veio imediatamente junto com sua resposta. Ele disse: Não! Não tenho medo porque sou cego, e só vejo coisas que estão na minha mente, e todas essas coisas dentro dela são sempre boas.

De repente voltei, senti o peso do corpo e comecei a embalar a rede novamente. Pensei um pouco sobre como seria um motociclista cego, e logo fui arrebatado outra vez. Acabei em um fabuloso encontro com o maior viajante e aventureiro de todos os tempos.

Um encontro com James Holman. Sim! Um ex. marinheiro que ingressou na marinha em 1798 aos 12 anos de idade. Holman sofria de uma síndrome chamada "gota vaga". Um diagnóstico vago que servia para quase tudo, e isso o obrigou a deixar seu ofício. Em minha "alucinação", Holman confirmou tudo aquilo que li nos livros a seu respeito.

Holman, um homem cego que com a ajuda de sua bengala, usando-a com o princípio da ecolocalização, deu a volta ao mundo pelo menos 42 vezes. Pisou em todos os continentes e em quase todos os países. Mas era cego. Ainda assim escalou o Vesúvio em plena erupção, e quase teve suas botas carbonizadas. Foi eleito para a Royal Society e citado por Darwin. 

O que o deixava zangado? Ah, Quando alguém dizia ser inútil suas viagens, suas aventuras, pois nada podia ver. Mas Holman respondia sempre à altura. - "Sabe meu caro, como você nunca viajou, mesmo tendo olhos, talvez não saiba; mas terras distantes têm outro cheiro, outros sons, um clima diferente, as pessoas também falam diferente, têm hábitos distintos, os sabores são outros, e não há como experimentar essas coisas apenas lendo livros ou ouvindo alguém falar, porque as sensações e a percepção são atributos individuais não compartilháveis".

Meu Deus! O que estou fazendo da minha vida? Tenho mãos, pés, olhos que veem, tenho até algumas posses e bens materiais, no entanto, faltam-me muitas experiências, quem sabe aquela que Holman, mesmo cego, experimentou. Eu nunca escalei nem muro de quintal.

Logo saí do transe e o estado de alucinação cedeu lugar à realidade. 

Se não nos apressarmos, chegará o dia em que abriremos os olhos após nosso devaneio, e iremos lamentar por coisas que nunca fizemos. Ainda há tempo.

Obs: a história de um cego aventureiro, viajante e pesquisador, é real. O relato consta em vários livros acadêmicos da minha área, Neurociências Clínica. Esta semana li mais uma vez no livro: "o duelo dos neurocirurgiões".

Waldez Pantoja

O Cão chorão

Ao lado da padaria o cão chorava e gritava muito. Alguém comovido, foi até ao dono do estabelecimento e perguntou o que estava acontecendo com o pobre cachorro. O proprietário respondeu dizendo que o pobre cão estava deitado em cima de um prego.

- Ora, Senhor! E por que ele não se levanta?

- Ah! Isso é porque não está doendo tanto, o lamento é bem maior que a dor. Um paradoxo. Quando chora ele esquece do prego. Coitado!

Que vida! Assim também nós nos comportamos muitas vezes. Embora o desconforto seja grande, a força para sair em busca de solução é menor do que o lamento.

Deve ser doloroso demais contemplar aquele que passa carregando nossas oportunidades para longe porque decidimos apenas esperar.

O corpo pode ter sido escravizado pela dor, pela frustração, pelo infortúnio; o que importa é a mente livre para podermos lutar pela nossa própria liberdade que insistimos em aprisioná-la.

Força, esvazia tua mente, acalma a tua alma, pode os maus pensamentos, agindo assim, a vida floresce.

Waldez Pantoja

sexta-feira, 5 de março de 2021

Ah, se eu soubesse

 


Tempos, escolhas, momentos, a vida como um retalho. Nem sempre temos em mãos as melhores ferramentas para executar uma obra, e isso pode impactar a nossa vida e também a vida dos demais. 

Ah, se eu soubesse. Claro! Tudo seria diferente. Mas, por algum motivo, não sabemos com certeza quais serão os resultados de nossas escolhas. É muito fácil, após tardiamente sabermos o resultado, emitir uma opinião sobre qual seria a melhor escolha que o outro, ou até nós mesmos deveríamos fazer. Na hora da decisão, lançamos mão do que está disponível, seja uma disponibilidade física ou mental, e não do que gostaríamos de ter.

Difícil confiar apenas nos sentidos, pois às vezes, eles nos enganam. Nossas certezas são facilmente abaladas diante do resultado não esperado. Se não se pode mudar, busca-se outras alternativas. As boas escolhas serão sempre uma enorme vantagem, são elas que determinarão o caminho a ser trilhado. Cada um de nós, limitados, encerrados dentro do nosso próprio saber.

Erros são cometidos por nós quase diariamente. Tudo o que vemos e ouvimos é facilmente distorcido. Quando estamos dispostos a acreditar ou mesmo não acreditar, pouca ou nenhuma explicação resolve, nenhum disponibilidade fará diferença. 

Waldez Pantoja

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Maquiavel na prática

 

A quem pertence o poder? Maquiavel na prática.

Dentre tantos filósofos, Nicolau Maquiavel (1469 - 1527), desperta a atenção de diversos políticos. Os déspotas se deleitam com sua obra mais notória: O Príncipe. O que seria uma crítica às doutrinas religiosas e à ética, uma análise do sistema vigente sobre a condição humana, termina se tornando um manual sórdido de sobrevivência política. Os políticos daquela época não deveriam ser assim tão diferentes dos atuais. Embora os nossos sejam bem mais sagazes. 

Em seus escritos, Maquiavel fazia oposição utilizando uma linha de pensamento ditada por antigos filósofos, que acreditavam ser o poder político uma dádiva divina. Ou seja, políticos são políticos porque os deuses assim o quiseram. Ele rompe ainda com outra linha; saindo do idealismo para o realismo, coisas com as quais estamos em contato em nosso dia a dia, aquelas que estão à nossa frente e nos impactam e influenciam. 

Para Maquiavel, o poder não é uma escolha divina, nem uma dádiva, mas sim uma escolha que está nas mãos de quem tiver a capacidade de tomá-lo. Tornando o meio tão ou até mais importante que os fins.

Maquiavel tratava de refutar a crença de que as ações dos governantes eram a vontade de Deus. Ele acreditava que o homem, através da sua vontade, consegue chegar ao poder usando os diversos meios para os próprios fins,  e não recebendo uma mãozinha divina a seu favor.

Hoje os governantes já não pensam que eles são escolhidos por Deus para exercer o poder. Na verdade, eles pensam ser a própria divindade. Nem Sócrates nem Platão imaginavam que chegaríamos a tanto, mas chegamos. Nossos políticos vivem assim, acima do bem e do mal, acima das leis por eles estabelecidas. Maquiavel observou ainda em sua época, que a moral e as virtudes não eram as mesmas. Há uma moral e virtude para o governante, e outra moral e virtude para os súditos, o povo em geral.

Maquiavel sustentava a ideia de que, ao tomar decisões, o governante deve considerar qual delas será mais benéfica ao Estado. Nossos governantes aplicam o princípio muito bem, mas com uma condição: "as ações e as decisões, devem sim, ser consideradas levando em conta qual a mais benéfica, não para o Estado ou para o povo, mas sim, para o próprio governante, aquele que detém o poder".

E dessa forma, caminhamos, comandados pela sordidez escancarada, sem nenhuma atitude que faça alguma diferença em prol do bem comum. Enquanto os políticos lidam com o realismo, o povo assume o idealismo, vive esperando que as coisas possam cair do céu.

O poder pertence àqueles que por ele decidem lutar.

Vida longa ao Príncipe.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

RESPOSTAS EMOCIONAIS

Em um mundo movido pela ganância, pelo lucro rápido e fácil, cheio de muita manipulação, ficamos expostos diante de fontes diversas que nos bombardeiam por todos os lados. Difícil uma consciência totalmente racional face a tantos estímulos, é quando nossas respostas se tornam automáticas. Caímos feito patinhos frente à tais estímulos com conclusões 100% emocionais, embora sempre racionalizadas. Até chegamos a acreditar que há um nobre motivo por trás de algumas "propostas" (imposições). Acreditamos estar escolhendo livremente, mas quase sempre, estamos a serviço de mentes ardilosas.

É a emoção que nos faz acreditar que nossas certezas, crenças, são totalmente verdadeiras. Qualquer evidência contrária pode ser descartada, o chamado viés confirmatório em ação.

As escolhas racionais são lentas, morosas, cheias de prós e contras, listas enormes. A emoção é muito mais rápida, nem precisamos pensar e já temos uma resposta que nos agrada. Tanta rapidez emocional inibe nossa racionalidade e sequestra as funções executivas.

Por sorte, há sempre alguém que de longe consegue ver, ouvir, sentir o ardil sendo esculpido. A partir daí, temos uma oportunidade para reconsiderar quando não nos fechamos dentro de nós mesmos.

Waldez Pantoja

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Índice de distância do poder



LAMIA - A TRAGÉDIA

Acidentes são situações previstas através de algoritmos bem conhecidos. Dados estatísticos ajudam nas tomadas de decisão, mas nem sempre, há outros fatores ocultos envolvidos que são parcial ou totalmente desconhecidos. Aliás, dados em demasia, podem até atrapalhar.

Os acidentes típicos envolvem sete erros humanos consecutivos. Esta é a conclusão de um estudo de cálculo sobre acidentes e segurança, realizado entre 1978 e 1990 pela National Transportation Safety Board. Isto significa, que se algum erro fosse detectado, o acidente poderia ter sido evitado. De fato, não precisariam ser detectados 7 erros, mas um único seria o bastante. E foi! 

No relato da fala entre a funcionária do aeroporto Celia Castedo e o piloto, ela detecta o erro que poderia evitar as mortes. Mas algo fez com ela não tivesse relatado o fato, e assim, evitado a tragédia. 

Que fato foi esse? Muitos dirão que talvez tenha sido incompetência. Talvez, mas há algo oculto, que muitos de nós estamos sujeitos, um processo inconsciente, em especial ocorre com cidadãos de determinados países, a América do Sul se encaixa perfeitamente na teoria. 

Geert Hofstede (1974) apresentou uma teoria chamada: Índice de Distância do Poder. 

Segundo Malcolm Gladwell (2008), cada um de nós possui sua personalidade característica. Mas a ela se sobrepõem as tendências, os pressupostos e os reflexos transmitidos pela história da comunidade onde nascemos e crescemos - e essas diferenças são extremamente específicas.

A ideia do Índice de Distância do Poder (IDP), diz que, determinadas pessoas, têm na autoridade, alguém distante, que não pode ser contrariado, e isto, envolve as atitudes em relação a hierarquia, especificamente o grau em que uma cultura valoriza e respeita a autoridade.  E assim procedem quando se deparam com situações típicas que exigem uma decisão mais assertiva. Até tomam uma posição, mas não levam a cabo, justamente pela Distância que separa ambos. Essa distância é real, algo que surgiu durante a fase do desenvolvimento da pessoa, e, se faz forte em determinadas situações.

Americanos por exemplo, tem índice de IDP baixo. A distância entre a autoridade e o cidadão dito comum, é baixa. Se a constatação do erro no plano de voo, fosse feita por uma pessoa com baixo IDP, o processo teria sido interrompido. Mas não foi o caso. O fato da funcionaria não ter sido mais incisiva, demonstra também seu alto IDP. O medo de perder seu emprego pode ter falado mais alto. Não se sabe.

A funcionaria estava certa ao questionar o piloto, mas sua sugestão implícita foi tímida. A reação do piloto foi ignorá-la por completo. Quem sabe ela não quisesse parecer rebelde, questionando insistentemente um piloto experiente. A defesa de sua opinião, dado ao alto IDP, não foi bastante o suficiente para impedir o piloto de continuar com o procedimento errôneo que levou dezenas à morte, inclusive ele próprio.
 
Suécia, Bélgica, Áustria, Holanda, Estados Unidos, têm baixo IDP. Naturalmente já imaginamos que alguns países Sul-americanos, têm alto IDP. E, isso é verdade. O Brasil tenta se posicionar, e em breve, quem sabe... Observando dentro de uma escala, alguns países vizinhos, têm índices maiores e outros menores.

Este não foi o primeiro acidente nos mesmos moldes, e se os protocolos não forem observados com maior rigor, É provável que ocorram outros.

Em um estudo realizado por Helmreich e Ashleigh Merritt, concluiu que os campeões do alto IDP são o Brasil e a Coreia do Sul. - lembrando que um baixo IDP, seria ideal.

A conclusão é, que a tragédia realmente estava praticamente "destinada" a acontecer, por motivos óbvios, o envolvimento dos responsáveis pela segurança do voo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O GRADIENTE DA VIDA

 

Entre o nascimento e a morte vivemos o gradiente da vida. Variação onde nada é 100%, nada é conhecido em sua totalidade. Há sempre algo entre um estado e outro, minúcias completamente alheias à nossa compreensão.


Sabe-se que um gradiente trata da variação gradativa de uma determinada propriedade. Sobe, desce. Pode avançar ou deter-se. Esfria e depois volta a esquentar. Mal percebemos a transição dada a sutileza com ela ocorre.


O arco-íris é um desses fenômenos da natureza entre tantos outros que apresentam o espectro gradiente. Entre o azul e o vermelho há diversas cores, algumas imperceptíveis ao olho humano, mas estão lá.


Nada é 100% benéfico, nem maléfico. Aliás, as coisas em si são neutras, e nós, tratamos de dar sentido a tudo dentro da variação gradiente. Ninguém é sempre bom, nem mau; em algum momento, nós nos comportamos em falta e deixamos a desejar. Esperávamos mais de nós mesmos, mas não obtivemos o resultado esperado.


Entre amor e ódio, há um espectro gradiente. Entre o adulto e a criança, também uma passagem sutil que sequer conseguimos perceber. Quando nos damos conta, sentimos que houve uma mudança, embora seja difícil identificar o exato momento em que isso ocorreu. Mudou! 


Limitados, não compreendemos o mundo real, cada um trata de construir sua própria realidade, assim, simplificamos o mundo. Mesmo diante de evidências contrárias, tendemos a acreditar naquilo que nos conforta, o que para nós faz sentido. Se pararmos para analisar, um segundo olhar pode  revelar que nada é velho, tudo é novo, um gradiente antes não percebido, não detectado, agora é uma novidade.


A realidade do observador nunca é a mesma do objeto observado. Há nuances que nos escapam, nossas próprias limitações nos impedem de assimilar o todo.


Quando nos tornamos o que somos? Não sabemos, porque este é o gradiente da vida.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

De onde vem o trigo. Você sabe?

Viajar é ótimo. A gente aprende, desaprende, muda velhos paradigmas, adquire novos conhecimentos, ou apenas fortifica algumas teimosas idiossincrasias.

Às vezes, não importa quanto conhecimento você tenha, de uma hora para outra, pouco ou nada valerá diante de uma situação inusitada. Não importa também seu grau de instrução; sua ostentada pós graduação, se lato sensu ou stricto sensu, sua dissertação, sua tese defendida a todo custo encarando uma ferrenha banca, nada disso conta em certos momentos.

Cheguei ainda cedo pela manhã em um posto de gasolina querendo apenas abastecer a moto. Um frentista vermelho, jeitão de peru. Ele era o verdadeiro Didático Peru Falante. Descrição que me veio à cabeça naquele instante.

Pois bem! O Didático Peru Falante é um desses sujeitos que não admite derrota. Logo percebi que ele e um outro amigo estavam em um relevante embate, pelo menos para eles. O tema devidamente estruturado, problematizado, e uma ideia fixa: tentavam a todo custo destronar a certeza um do outro. A pergunta era: de onde vem o trigo? O Didático Peru Falante, defendia sua tese dizendo que vem do milho. O oponente afirmava ser do arroz. Mas o Peru Didático logo rebateu, do arroz vem a Maizena, o trigo é do milho sim.

Eu meio que com fome, resolvi não entrar no debate e interromper aquela discussão. Mas de nada adiantou, e logo fui requisitado a dar meu parecer. - Pergunta aí pra ele então. Viajante sabe das coisas mais do que nós dois. 

- Diga aí então, o trigo vem ou não vem do Milho? 

Sorrindo eu disse, vem não! 

- O oponente do Peru Didático, quase morre de rir.

- Não disse! Não disse! Exclamou. E já emendou, vem do arroz, não é?

- Também não! Disse eu.

Ah! Aquilo irritou o Peru Falante que mandou bem na minha lata. - Então diga, de onde vem?

Bom! O trigo vem do trigo. Disse eu. Mas, o Peru Didático não se deu por vencido e mandou mais uma. - É, a moto é bonita, deve viajar muito, mas de trigo parceiro, aí não! Você não sabe nada.

Sorri, paguei os 35 reais do abastecimento, e fiquei eu ali pensando... Por que contrariar alguém que tem certeza do que fala? Nada se ganha. Tentar ensinar quem já pensa que sabe e não quer aprender, é trabalho inútil.

Sorri muito o resto do dia. Mas se você não viaja, então já conhece todas as tiradas dos amigos, as velhas idéias que não mudam jamais, as mesmas piadas de sempre, tudo tão previsível que é até capaz de completar o final da história contada. Na estrada coisas inusitadas sempre acontecem.

Agora responda você mesmo: de onde vem o trigo?

Waldez Pantoja

sábado, 30 de janeiro de 2021

A felicidade, quem a encontrará?


 A FELICIDADE, QUEM A ENCONTRARÁ?


Pare de procurar a felicidade, você não a encontrará, é ela que nos encontra.


Talvez o conceito de felicidade seja tão abundante quanto o número de pessoas dispostas a conceituá-la. Sempre que alguém é inquirido sobre o que é felicidade, parece surgir uma nova opinião a ser avaliada.


Sempre que alguém busca intensamente pela felicidade, tudo o que acha é ansiedade, frustração, angústia, aflição, inquietação. Isso porque, as comparações se sobrepõem à própria felicidade. Ninguém se torna feliz buscando felicidade. Quando estamos prontos, preparados, ela nos acha, e assim, podemos colher seus benefícios de bom grado.


O riso, uma gargalhada, o choro, um abraço, ajudar, ser ajudado, compartilhar, são situações que atraem esse estado de fluxo e nos sintoniza, nos sincroniza, nos predispõe para recebê-la de bom grado. Embora haja certa dificuldade em conceituar a felicidade, todos, intuitivamente, sabemos do que se trata quando ela surge, quando presente em nossas vidas.


Crianças são felizes porque não se deixam perturbar buscando a felicidade,

elas apenas vivem. Se não forem impedidas por maus tratos, vivem despreocupadamente felizes. Não precisam de muito.


Muitas vezes a esperança, a expectativa do prêmio, o entusiasmo, pequenas conquistas, o observar da natureza, o canto dos pássaros, a companhia da pessoa amada, ouvir uma música, amigos, a família, todas essas coisas nos preparam para recebê-la quando ela chegar.


Quem acredita precisar de muito, quem crer precisar de mais para ser feliz, consegue fazer com que a felicidade fuja, se afaste em alta velocidade.


Já não mais busco a felicidade, mas deixo sempre a porta aberta, quando ela me encontra, fico sempre feliz da vida.


Felicidade, quem a encontrará?


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Falso ou fato?

Certo dia, decidi não mais compartilhar certos conteúdos. Aprendi que, se não vi, não devo servir a propósitos escusos alheios.

Os produtores de Fake News sempre sabem o que estão fazendo, e ganham com isso. Há um retorno, quase sempre financeiro. Quem não sabe são os que compartilham, na pressa, também ajudam a causar os danos pretendidos pelos outros. Nada viram, não sabem, apenas repetem o que ouviram falar. Incertezas propagadas.

Os provérbios são fartos em lição.

Não permitas tu que tua boca seja precipitada, nem as tuas mãos no teclado apressadas. Dizem que quem refreia os lábios, é sábio. 

Diz o livro sagrado: Estas seis coisas o Senhor odeia; sim, sete são abominações para ele: […]

a testemunha falsa que fala mentiras, e aquele que semeia discórdia entre irmãos.


Não se recolhe penas lançadas ao vento, não todas. Nem a flecha nem as palavras pronunciadas, voltam jamais.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Se houver tempo

Se houver tempo

Como foste rápido, frívolo e efêmero diante da oferta abundante da vida. Por que desperdiçaste o tempo como se dele tu fosses senhor? O que anseias se não te moves, se te deixas consumir por sonhos e devaneios atados à rocha inerte? Caberá a ti mesmo elaborar teus dias e justificá-los de maneira tal que não te arrependas do ócio desejado.

Pávido e sem sorte alguma, ainda anseias pelo incerto e indeciso amanhã? Talvez diante do infortúnio, algum dia extra te seja concedido. Passaram, eles passaram, mas nós e os demais também colheremos o mesmo tributo da vida. E assim vive o ser, limitado por suas certezas, crenças, convicções, esperanças, seu próprio juízo.

Em nossa última contribuição, devolveremos os elementos que compõem o corpo à natureza, e eles, por sua vez, irão compor novos corpos, sediarão novas ideias, novos frutos. O ciclo estará pronto para continuar a jornada, trocas e permutas perenes.

Ah, como ainda tens um agora, quem sabe seja o momento de apreciar, desfrutar um único desejo, não haverá adição, nunca há. Desejo insólito, enche o peito, reúne tuas forças mais uma vez e te será aberta a porta que jamais cruzarás. Ainda assim, terás caminhado e vivido a tua imortalidade enquanto vida tiveres.

Waldez Pantoja