sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O CASTELO DA FELICIDADE

Nenhuma servidão é mais vergonhosa do que a autoimposta. (Sêneca).

Posso reparar a sua moto?  Assim começou uma conversa após eu abastecer e estacionar a moto em frente a um restaurante próximo ao  posto de gasolina.

Era um senhor de meia idade em busca de algum trocado. Em tom de brincadeira eu disse que naquele dia eu estava cobrando pela exposição da moto. A língua certeira dele disparou: "é rico, mas miserável". O sangue subiu, a orelha esquentou, e a língua coçou.

Como se eu tivesse saído de um retiro espíritual com monges enclausurados nas montanhas do Tibet, retomei a rédea e perguntei: o que você quer? - Comer, só isso, estou com fome, disse ele.

Aproximadamente 13:30h, a melhor hora para almoçar. É quando a fome se torna o melhor tempero. Vamos lá! Vamos comer. Convite feito e aceito na hora.

Sentamos à mesa e ali começou um longo interrogatório como aperitivo. O homem era falante mesmo. 

- O senhor é feliz? 

- Sim! Na medida do possível. Respondi eu.

- O senhor paga seus impostos?

- Na verdade, entrego ao governo. É sempre um assalto.

- O senhor paga luz e dorme bem a noite?

- Pago sim, se não pagar eles cortam e eu fico no escuro. Durmo bem sim, às vezes não.

- Pois é! Eu também não pago aluguel. Durmo muito bem, ali mesmo ao lado da borracharia. Não pago luz, ela fica ligada a noite e durante o dia tem o sol. Nem pago imposto também. Não é uma vida boa? 

- Não sei, aí é você quem deve responder a sua pergunta.

- Sabe de uma coisa? Em todo lugar tem gente feliz e gente triste, não é mesmo? Agora mesmo, o príncipe, aquela lá, filho da Rainha da Inglaterra está brigando com a mãe. A família toda brigando. Ele vai sair daquele maravilhoso Castelo. O homem tá triste. Coitado! E eu aqui, feliz da vida porque ganhei um almoço.

Paguei a conta e ele disse: valeu!

Nem eu seu o nome do homem e nem ele sabe o meu. Mas creio que nem eu nem ele esqueceremos um do outro. Vidas marcadas para sempre.

Quem aprende a ser livre, livre é.

Cada um de nós constrói o próprio castelo, e nele, escolhemos viver felizes ou infelizes.

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