quarta-feira, 24 de março de 2021

QUANDO ACORDARMOS

 


De repente percebemos que não precisamos de muito para viver. Que a busca por mais não satisfaz. Que o próximo precisa mais de proximidade e assiduidade, dignidade. 

De repente tudo muda, tudo se desnuda; não se desiluda, não espere dores agudas. Os dias seguem sua jornada e a oportunidade perdida não será estornada.  

Hoje é dia de se acalmar, esperar, respirar para poder caminhar. O sol nasce, se põe, depõe, testemunha, às vezes sussurra brandura, também cura.

Hoje é dia de erguer a cabeça, sem tristeza, com certeza. Dia de desfrutar um pouco mais, observar a natureza que esbanja beleza. Dia de tornar-se uma fortaleza, com delicadeza. 

Aquele que partir deverá deixar muito mais do que levará; amizade, cumplicidade, fraternidade, confiabilidade, amor e muita saudade. Assim, manterá viva a própria eternidade.

Em algum lugar

Quanta pressa para julgar, demora para amparar. Quanta pressa para impedir, demora para acudir. Choque de ideias prontas a colidir.


Faz, desfaz, lança e nada alcança, quase tudo lambança. Estardalhaço que causa grande embaraço. Perdas, estragos, medos, talvez enredo de bêbados. 


Deve existir um meio termo, quem sabe um lugar onde os dias e as noites não sirvam apenas para divagar, quem dera fosse um afável acariciar.


Luto contra o luto, que resoluto, quero acreditar, que todos descansam em um bom lugar. Difícil não aceitar ou até mesmo ignorar.


Amanhã quando todos partirmos, outro assumirá o nosso lugar. É de bom alvitre não duvidar, pois, aquilo que construímos, isso é o que há de ficar.

quinta-feira, 11 de março de 2021

A ESTRADA DO MEDO

 

Pobre ser. O mais temeroso dos homens. 

Ele nasceu em um pequeno território, nunca foi além de suas próprias fronteiras. Muitas delas eram muros mentais que ele mesmo construiu. Cresceu limitado; sempre consumindo os mesmos alimentos, falando o mesmo idioma, andando pelos mesmos caminhos, cultivando os mesmos amigos com as mesmas opiniões que não mudam jamais. Seu mundo era tão pequeno com muros tão altos, que nada além podia ser vislumbrado. O pouco que aprendeu, nada compartilhou. Mesmo assim, cultivava muitos sonhos, sonhos que mais pareciam devaneios desordenados.

Temeroso sempre tinha boas respostas na ponta da língua quando o assunto era alguma realização significativa. "Ainda não é o momento certo"; "o dia ideal vai chegar";  "eu sei que as condições irão melhorar"; pobre temeroso, não sabia que as condições ideais estão dentro de cada um de nós. É lá que elas surgem, mas também onde são condenadas à morte, algumas morrem de inanição.

Certo dia, muito doente, já velho e desanimado, Temeroso percebeu que havia cometido um grande erro. - "Ah, se eu soubesse!", disse ele. Passou a vida com medo de errar, se preparando e acreditando que o mundo se resumia a seu restrito território. Cheio de grandes certezas inabaláveis, Temeroso desapareceu sem deixar vestígios.

Cada época com seus próprios medos. Adequação que também pode variar entre pessoas. O que não se pode fazer é desprezar essa emoção por completo, pois o risco seria iminente. Viver refém do medo nos impede, nos afasta de grandes conquistas. O medo de perder aquilo que não nos pertence também nos torna pequenos demais e incapazes. O que realmente é nosso?

Vá em paz, nobre e acomodado Temeroso Ser. Que sua vida sirva de exemplo a não ser seguido jamais.


Waldez Pantoja

terça-feira, 9 de março de 2021

O que a religião roubou de mim?

Achei bem interessante a pergunta: "O que a religião roubou de mim?". Na verdade, a frase é o título de um livro. O esposo de uma ex-funcionária minha o escreveu, mas eu mesmo nunca o li. Fiquei a imaginar sobre o que exatamente se tratava o tal livro. Hoje, de repente, o tema surgiu na minha mente novamente.

Não seria difícil imaginar uma colocação para os dias atuais. Imaginar sobre a capacidade que tem o ser humano em desvirtuar, por exemplo, uma mensagem, uma informação, uma ideia, de maneira tal, que, a própria originalidade da mensagem seja mudada, assumindo novos rumos.

Exemplos não faltam, em especial, em relação ao que hoje se chama Cristianismo. Um Cristianismo que não se coaduna com os próprios escritos ditos sagrados. O que se apresenta é uma adequação da mensagem original, de maneira tal, a fazer sentido a necessidade daquele que busca novidade, melhorar a vida financeira, e, a tal felicidade também mal conceituada, entre outros. Levar vantagem é o lema.

A pechincha sagrada. Negociata sagrada. Troca sagrada. A fé é comercializada por módicas quantias. Uma bíblia pode custar até dois mil reais em uma campanha para arrecadar fundos. Um investimento sagrado, que, se der resultado positivo, parabéns, se não, faltou fé, afinal, ela move montanhas. Aí, mais empenho será necessário, digo, mais dinheiro investido.

O próprio Jesus, o Mestre, dizia não ter posses, não ter sequer onde repousar a cabeça, ou seja, financeiramente, era pobre mesmo. O apóstolo Paulo, grande propagador da mensagem original, tinha que trabalhar duramente, e também, não demonstrava ou ostentava nenhuma riqueza, não orientava aos seguidores que buscassem tais riquezas. Aliás, o lema era acumular coisas muito mais nobres, tesouros que nem a traça nem a ferrugem corroem. Os discípulos convocados deixaram tudo para seguir o Mestre.

E hoje? O que se tem são lobos devoradores, vivem no meio das ovelhas que sofrem de miopia espiritual. Cegos, não conseguem fazer distinção entre fé e golpe. Líderes religiosos que mais parecem grandes caloteiros aplicando o famoso golpe do paco. Ambos com sua parcela de culpa. O que engana quer lucrar, o enganado, benefício rápido e lucro financeiro também.

A promessa de prosperidade atrai muitos dispostos a investir pesado. Prometem tanto quanto qualquer político em época de eleição, claro, o ganho maior será após a morte. Reclamar fica difícil.

Não ajunteis para vós tesouros na terra onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam, mas dizem os grandes líderes: invista e tenha dois carros na garagem, mansão, fazenda, um grande comércio. Muito, muito dinheiro.

O que a religião roubou de mim? Nada! Pois essa inclinação a mensagem deturpada, falsificada, travestida de Cristianismo não me atrai. Quem sabe para alguns, tempo e a capacidade de pensar por si mesmos tenham sido roubados.

Waldez Pantoja

sábado, 6 de março de 2021

Segure firme!

Segure firme! Segure firme! Esta era a voz que um aventureiro ouvia após um salto duplo quase fatal em uma asa delta. O instrutor simplesmente esqueceu de afivelar  o novato aventureiro, e por pouco a aventura não terminou em tragédia. Com muita sorte e força no braço, ambos pousaram em segurança.

De outra feita, em uma escalada à noite, um Alpinista caiu do alto de uma montanha muito fria. Como a corda de proteção estava presa ao homem, ele apenas ficou pendurado, não tocando o chão. De algum lugar uma voz ecoava dizendo: - "corte a corda, corte a corda". Mas sabe-se lá porque, o homem não cortou a corda. Talvez tivesse medo, estava muito escuro e ele não via nada abaixo dele. Pela manhã, o alpinista foi encontrado morto e congelado a apenas alguns centímetros do chão.

Duas situações distintas. Para salvar a vida, um teria que segurar firme. Já o outro, deveria soltar, largar-se, cortar a corda que o prendia. Assim é a vida. Às vezes, temos que nos agarrar, outras vezes, soltar o que nos prende, o que nos impede de seguir em frente. Algumas vezes experiências passadas nos salvam. Outras, nos mantém em apuros porque o paradigma estabelecido é forte demais para ser alterado.

Boécio dizia que a natureza da sorte é ser instável, não há nela nenhuma constância. Não podemos contar com ela sempre. Sorte é sorte! Thomas Hobbes acreditava que a segurança era muito mais importante do que a liberdade. Talvez por isso, o Alpinista não tivesse ousado cortar a corda, e por isso, morreu seguro.

Viver exige um contínuo estado de transformação, mudança e alternância. O que cabe em uma situação, talvez não caiba em outra. A vida em segurança é limitada pela fronteira da liberdade. Quem a ultrapassar se tornará livre, mas não seguro.

Limitado sim. Incapaz, não.

Qua a sua limitação? Um viajante cego.

Hoje eu acordei cedo, saí da cama e fui para uma rede em outra área. Embalei-me um pouco, e logo me dei conta de que eu não estava mais ali.

Foi como se eu tivesse deixado meu corpo mais uma vez, e assim viajei. Senti-me sem peso algum, verdadeiramente livre. No horizonte vi um solitário viajante em sua motocicleta e logo tratei de esperá-lo passar. Acenei e ele parou. Perguntei de onde ele vinha e para onde ia. Sem titubear ele disse que vinha da vida e para a vida estava indo. Uma vida melhor, na estrada.

Após duas aceleradas vigorosas, o homem desligou a moto e sorriu.

- Viaja só, não tem medo? Perguntei. A surpresa veio imediatamente junto com sua resposta. Ele disse: Não! Não tenho medo porque sou cego, e só vejo coisas que estão na minha mente, e todas essas coisas dentro dela são sempre boas.

De repente voltei, senti o peso do corpo e comecei a embalar a rede novamente. Pensei um pouco sobre como seria um motociclista cego, e logo fui arrebatado outra vez. Acabei em um fabuloso encontro com o maior viajante e aventureiro de todos os tempos.

Um encontro com James Holman. Sim! Um ex. marinheiro que ingressou na marinha em 1798 aos 12 anos de idade. Holman sofria de uma síndrome chamada "gota vaga". Um diagnóstico vago que servia para quase tudo, e isso o obrigou a deixar seu ofício. Em minha "alucinação", Holman confirmou tudo aquilo que li nos livros a seu respeito.

Holman, um homem cego que com a ajuda de sua bengala, usando-a com o princípio da ecolocalização, deu a volta ao mundo pelo menos 42 vezes. Pisou em todos os continentes e em quase todos os países. Mas era cego. Ainda assim escalou o Vesúvio em plena erupção, e quase teve suas botas carbonizadas. Foi eleito para a Royal Society e citado por Darwin. 

O que o deixava zangado? Ah, Quando alguém dizia ser inútil suas viagens, suas aventuras, pois nada podia ver. Mas Holman respondia sempre à altura. - "Sabe meu caro, como você nunca viajou, mesmo tendo olhos, talvez não saiba; mas terras distantes têm outro cheiro, outros sons, um clima diferente, as pessoas também falam diferente, têm hábitos distintos, os sabores são outros, e não há como experimentar essas coisas apenas lendo livros ou ouvindo alguém falar, porque as sensações e a percepção são atributos individuais não compartilháveis".

Meu Deus! O que estou fazendo da minha vida? Tenho mãos, pés, olhos que veem, tenho até algumas posses e bens materiais, no entanto, faltam-me muitas experiências, quem sabe aquela que Holman, mesmo cego, experimentou. Eu nunca escalei nem muro de quintal.

Logo saí do transe e o estado de alucinação cedeu lugar à realidade. 

Se não nos apressarmos, chegará o dia em que abriremos os olhos após nosso devaneio, e iremos lamentar por coisas que nunca fizemos. Ainda há tempo.

Obs: a história de um cego aventureiro, viajante e pesquisador, é real. O relato consta em vários livros acadêmicos da minha área, Neurociências Clínica. Esta semana li mais uma vez no livro: "o duelo dos neurocirurgiões".

Waldez Pantoja

O Cão chorão

Ao lado da padaria o cão chorava e gritava muito. Alguém comovido, foi até ao dono do estabelecimento e perguntou o que estava acontecendo com o pobre cachorro. O proprietário respondeu dizendo que o pobre cão estava deitado em cima de um prego.

- Ora, Senhor! E por que ele não se levanta?

- Ah! Isso é porque não está doendo tanto, o lamento é bem maior que a dor. Um paradoxo. Quando chora ele esquece do prego. Coitado!

Que vida! Assim também nós nos comportamos muitas vezes. Embora o desconforto seja grande, a força para sair em busca de solução é menor do que o lamento.

Deve ser doloroso demais contemplar aquele que passa carregando nossas oportunidades para longe porque decidimos apenas esperar.

O corpo pode ter sido escravizado pela dor, pela frustração, pelo infortúnio; o que importa é a mente livre para podermos lutar pela nossa própria liberdade que insistimos em aprisioná-la.

Força, esvazia tua mente, acalma a tua alma, pode os maus pensamentos, agindo assim, a vida floresce.

Waldez Pantoja

sexta-feira, 5 de março de 2021

Ah, se eu soubesse

 


Tempos, escolhas, momentos, a vida como um retalho. Nem sempre temos em mãos as melhores ferramentas para executar uma obra, e isso pode impactar a nossa vida e também a vida dos demais. 

Ah, se eu soubesse. Claro! Tudo seria diferente. Mas, por algum motivo, não sabemos com certeza quais serão os resultados de nossas escolhas. É muito fácil, após tardiamente sabermos o resultado, emitir uma opinião sobre qual seria a melhor escolha que o outro, ou até nós mesmos deveríamos fazer. Na hora da decisão, lançamos mão do que está disponível, seja uma disponibilidade física ou mental, e não do que gostaríamos de ter.

Difícil confiar apenas nos sentidos, pois às vezes, eles nos enganam. Nossas certezas são facilmente abaladas diante do resultado não esperado. Se não se pode mudar, busca-se outras alternativas. As boas escolhas serão sempre uma enorme vantagem, são elas que determinarão o caminho a ser trilhado. Cada um de nós, limitados, encerrados dentro do nosso próprio saber.

Erros são cometidos por nós quase diariamente. Tudo o que vemos e ouvimos é facilmente distorcido. Quando estamos dispostos a acreditar ou mesmo não acreditar, pouca ou nenhuma explicação resolve, nenhum disponibilidade fará diferença. 

Waldez Pantoja