sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Maquiavel na prática

 

A quem pertence o poder? Maquiavel na prática.

Dentre tantos filósofos, Nicolau Maquiavel (1469 - 1527), desperta a atenção de diversos políticos. Os déspotas se deleitam com sua obra mais notória: O Príncipe. O que seria uma crítica às doutrinas religiosas e à ética, uma análise do sistema vigente sobre a condição humana, termina se tornando um manual sórdido de sobrevivência política. Os políticos daquela época não deveriam ser assim tão diferentes dos atuais. Embora os nossos sejam bem mais sagazes. 

Em seus escritos, Maquiavel fazia oposição utilizando uma linha de pensamento ditada por antigos filósofos, que acreditavam ser o poder político uma dádiva divina. Ou seja, políticos são políticos porque os deuses assim o quiseram. Ele rompe ainda com outra linha; saindo do idealismo para o realismo, coisas com as quais estamos em contato em nosso dia a dia, aquelas que estão à nossa frente e nos impactam e influenciam. 

Para Maquiavel, o poder não é uma escolha divina, nem uma dádiva, mas sim uma escolha que está nas mãos de quem tiver a capacidade de tomá-lo. Tornando o meio tão ou até mais importante que os fins.

Maquiavel tratava de refutar a crença de que as ações dos governantes eram a vontade de Deus. Ele acreditava que o homem, através da sua vontade, consegue chegar ao poder usando os diversos meios para os próprios fins,  e não recebendo uma mãozinha divina a seu favor.

Hoje os governantes já não pensam que eles são escolhidos por Deus para exercer o poder. Na verdade, eles pensam ser a própria divindade. Nem Sócrates nem Platão imaginavam que chegaríamos a tanto, mas chegamos. Nossos políticos vivem assim, acima do bem e do mal, acima das leis por eles estabelecidas. Maquiavel observou ainda em sua época, que a moral e as virtudes não eram as mesmas. Há uma moral e virtude para o governante, e outra moral e virtude para os súditos, o povo em geral.

Maquiavel sustentava a ideia de que, ao tomar decisões, o governante deve considerar qual delas será mais benéfica ao Estado. Nossos governantes aplicam o princípio muito bem, mas com uma condição: "as ações e as decisões, devem sim, ser consideradas levando em conta qual a mais benéfica, não para o Estado ou para o povo, mas sim, para o próprio governante, aquele que detém o poder".

E dessa forma, caminhamos, comandados pela sordidez escancarada, sem nenhuma atitude que faça alguma diferença em prol do bem comum. Enquanto os políticos lidam com o realismo, o povo assume o idealismo, vive esperando que as coisas possam cair do céu.

O poder pertence àqueles que por ele decidem lutar.

Vida longa ao Príncipe.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

RESPOSTAS EMOCIONAIS

Em um mundo movido pela ganância, pelo lucro rápido e fácil, cheio de muita manipulação, ficamos expostos diante de fontes diversas que nos bombardeiam por todos os lados. Difícil uma consciência totalmente racional face a tantos estímulos, é quando nossas respostas se tornam automáticas. Caímos feito patinhos frente à tais estímulos com conclusões 100% emocionais, embora sempre racionalizadas. Até chegamos a acreditar que há um nobre motivo por trás de algumas "propostas" (imposições). Acreditamos estar escolhendo livremente, mas quase sempre, estamos a serviço de mentes ardilosas.

É a emoção que nos faz acreditar que nossas certezas, crenças, são totalmente verdadeiras. Qualquer evidência contrária pode ser descartada, o chamado viés confirmatório em ação.

As escolhas racionais são lentas, morosas, cheias de prós e contras, listas enormes. A emoção é muito mais rápida, nem precisamos pensar e já temos uma resposta que nos agrada. Tanta rapidez emocional inibe nossa racionalidade e sequestra as funções executivas.

Por sorte, há sempre alguém que de longe consegue ver, ouvir, sentir o ardil sendo esculpido. A partir daí, temos uma oportunidade para reconsiderar quando não nos fechamos dentro de nós mesmos.

Waldez Pantoja

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Índice de distância do poder



LAMIA - A TRAGÉDIA

Acidentes são situações previstas através de algoritmos bem conhecidos. Dados estatísticos ajudam nas tomadas de decisão, mas nem sempre, há outros fatores ocultos envolvidos que são parcial ou totalmente desconhecidos. Aliás, dados em demasia, podem até atrapalhar.

Os acidentes típicos envolvem sete erros humanos consecutivos. Esta é a conclusão de um estudo de cálculo sobre acidentes e segurança, realizado entre 1978 e 1990 pela National Transportation Safety Board. Isto significa, que se algum erro fosse detectado, o acidente poderia ter sido evitado. De fato, não precisariam ser detectados 7 erros, mas um único seria o bastante. E foi! 

No relato da fala entre a funcionária do aeroporto Celia Castedo e o piloto, ela detecta o erro que poderia evitar as mortes. Mas algo fez com ela não tivesse relatado o fato, e assim, evitado a tragédia. 

Que fato foi esse? Muitos dirão que talvez tenha sido incompetência. Talvez, mas há algo oculto, que muitos de nós estamos sujeitos, um processo inconsciente, em especial ocorre com cidadãos de determinados países, a América do Sul se encaixa perfeitamente na teoria. 

Geert Hofstede (1974) apresentou uma teoria chamada: Índice de Distância do Poder. 

Segundo Malcolm Gladwell (2008), cada um de nós possui sua personalidade característica. Mas a ela se sobrepõem as tendências, os pressupostos e os reflexos transmitidos pela história da comunidade onde nascemos e crescemos - e essas diferenças são extremamente específicas.

A ideia do Índice de Distância do Poder (IDP), diz que, determinadas pessoas, têm na autoridade, alguém distante, que não pode ser contrariado, e isto, envolve as atitudes em relação a hierarquia, especificamente o grau em que uma cultura valoriza e respeita a autoridade.  E assim procedem quando se deparam com situações típicas que exigem uma decisão mais assertiva. Até tomam uma posição, mas não levam a cabo, justamente pela Distância que separa ambos. Essa distância é real, algo que surgiu durante a fase do desenvolvimento da pessoa, e, se faz forte em determinadas situações.

Americanos por exemplo, tem índice de IDP baixo. A distância entre a autoridade e o cidadão dito comum, é baixa. Se a constatação do erro no plano de voo, fosse feita por uma pessoa com baixo IDP, o processo teria sido interrompido. Mas não foi o caso. O fato da funcionaria não ter sido mais incisiva, demonstra também seu alto IDP. O medo de perder seu emprego pode ter falado mais alto. Não se sabe.

A funcionaria estava certa ao questionar o piloto, mas sua sugestão implícita foi tímida. A reação do piloto foi ignorá-la por completo. Quem sabe ela não quisesse parecer rebelde, questionando insistentemente um piloto experiente. A defesa de sua opinião, dado ao alto IDP, não foi bastante o suficiente para impedir o piloto de continuar com o procedimento errôneo que levou dezenas à morte, inclusive ele próprio.
 
Suécia, Bélgica, Áustria, Holanda, Estados Unidos, têm baixo IDP. Naturalmente já imaginamos que alguns países Sul-americanos, têm alto IDP. E, isso é verdade. O Brasil tenta se posicionar, e em breve, quem sabe... Observando dentro de uma escala, alguns países vizinhos, têm índices maiores e outros menores.

Este não foi o primeiro acidente nos mesmos moldes, e se os protocolos não forem observados com maior rigor, É provável que ocorram outros.

Em um estudo realizado por Helmreich e Ashleigh Merritt, concluiu que os campeões do alto IDP são o Brasil e a Coreia do Sul. - lembrando que um baixo IDP, seria ideal.

A conclusão é, que a tragédia realmente estava praticamente "destinada" a acontecer, por motivos óbvios, o envolvimento dos responsáveis pela segurança do voo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O GRADIENTE DA VIDA

 

Entre o nascimento e a morte vivemos o gradiente da vida. Variação onde nada é 100%, nada é conhecido em sua totalidade. Há sempre algo entre um estado e outro, minúcias completamente alheias à nossa compreensão.


Sabe-se que um gradiente trata da variação gradativa de uma determinada propriedade. Sobe, desce. Pode avançar ou deter-se. Esfria e depois volta a esquentar. Mal percebemos a transição dada a sutileza com ela ocorre.


O arco-íris é um desses fenômenos da natureza entre tantos outros que apresentam o espectro gradiente. Entre o azul e o vermelho há diversas cores, algumas imperceptíveis ao olho humano, mas estão lá.


Nada é 100% benéfico, nem maléfico. Aliás, as coisas em si são neutras, e nós, tratamos de dar sentido a tudo dentro da variação gradiente. Ninguém é sempre bom, nem mau; em algum momento, nós nos comportamos em falta e deixamos a desejar. Esperávamos mais de nós mesmos, mas não obtivemos o resultado esperado.


Entre amor e ódio, há um espectro gradiente. Entre o adulto e a criança, também uma passagem sutil que sequer conseguimos perceber. Quando nos damos conta, sentimos que houve uma mudança, embora seja difícil identificar o exato momento em que isso ocorreu. Mudou! 


Limitados, não compreendemos o mundo real, cada um trata de construir sua própria realidade, assim, simplificamos o mundo. Mesmo diante de evidências contrárias, tendemos a acreditar naquilo que nos conforta, o que para nós faz sentido. Se pararmos para analisar, um segundo olhar pode  revelar que nada é velho, tudo é novo, um gradiente antes não percebido, não detectado, agora é uma novidade.


A realidade do observador nunca é a mesma do objeto observado. Há nuances que nos escapam, nossas próprias limitações nos impedem de assimilar o todo.


Quando nos tornamos o que somos? Não sabemos, porque este é o gradiente da vida.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

De onde vem o trigo. Você sabe?

Viajar é ótimo. A gente aprende, desaprende, muda velhos paradigmas, adquire novos conhecimentos, ou apenas fortifica algumas teimosas idiossincrasias.

Às vezes, não importa quanto conhecimento você tenha, de uma hora para outra, pouco ou nada valerá diante de uma situação inusitada. Não importa também seu grau de instrução; sua ostentada pós graduação, se lato sensu ou stricto sensu, sua dissertação, sua tese defendida a todo custo encarando uma ferrenha banca, nada disso conta em certos momentos.

Cheguei ainda cedo pela manhã em um posto de gasolina querendo apenas abastecer a moto. Um frentista vermelho, jeitão de peru. Ele era o verdadeiro Didático Peru Falante. Descrição que me veio à cabeça naquele instante.

Pois bem! O Didático Peru Falante é um desses sujeitos que não admite derrota. Logo percebi que ele e um outro amigo estavam em um relevante embate, pelo menos para eles. O tema devidamente estruturado, problematizado, e uma ideia fixa: tentavam a todo custo destronar a certeza um do outro. A pergunta era: de onde vem o trigo? O Didático Peru Falante, defendia sua tese dizendo que vem do milho. O oponente afirmava ser do arroz. Mas o Peru Didático logo rebateu, do arroz vem a Maizena, o trigo é do milho sim.

Eu meio que com fome, resolvi não entrar no debate e interromper aquela discussão. Mas de nada adiantou, e logo fui requisitado a dar meu parecer. - Pergunta aí pra ele então. Viajante sabe das coisas mais do que nós dois. 

- Diga aí então, o trigo vem ou não vem do Milho? 

Sorrindo eu disse, vem não! 

- O oponente do Peru Didático, quase morre de rir.

- Não disse! Não disse! Exclamou. E já emendou, vem do arroz, não é?

- Também não! Disse eu.

Ah! Aquilo irritou o Peru Falante que mandou bem na minha lata. - Então diga, de onde vem?

Bom! O trigo vem do trigo. Disse eu. Mas, o Peru Didático não se deu por vencido e mandou mais uma. - É, a moto é bonita, deve viajar muito, mas de trigo parceiro, aí não! Você não sabe nada.

Sorri, paguei os 35 reais do abastecimento, e fiquei eu ali pensando... Por que contrariar alguém que tem certeza do que fala? Nada se ganha. Tentar ensinar quem já pensa que sabe e não quer aprender, é trabalho inútil.

Sorri muito o resto do dia. Mas se você não viaja, então já conhece todas as tiradas dos amigos, as velhas idéias que não mudam jamais, as mesmas piadas de sempre, tudo tão previsível que é até capaz de completar o final da história contada. Na estrada coisas inusitadas sempre acontecem.

Agora responda você mesmo: de onde vem o trigo?

Waldez Pantoja