sábado, 14 de maio de 2022

Por que é tão difícil mudar?




Difícil encontrar alguém que diga não querer mudar nada na própria vida. Há sempre algo a ser mudado. Há sempre algo a ser melhorado. E assim, se nada for feito, a vida seguirá seu rumo, e a mudança tão esperada irá se resumir a uma promessa efêmera, nada acontecerá. Às vezes, nos tornamos tão desejosos pelas mudanças, que até tentamos impô-las na vida do outro quando ele mesmo não deseja mudar.


Muitos chegam a afirmar que a falta de vontade é o que impede a pessoa de mudar, dizem que é a preguiça, mas não é bem assim, há muitos fatores envolvidos nas mudanças. Alguns desses fatores são hábitos automáticos, nem sempre conscientes. 


E como mudar se muitas vezes a pessoa não tem nem a consciência dos fatores que a impede de realizar a mudança desejada? 


Autoconsciência, disciplina, conhecimento, informação, busca, persistência, benefícios, determinação, são alguns atributos a serem buscados na hora da mudança.


Toda e qualquer mudança envolve uma grande mobilização dos circuitos neurais. E isso, não é tão simples ou fácil como parece. Até porque, novos hábitos, um novo aprendizado, tudo envolve gasto energético, e o cérebro nos leva a querer a economia dessa reserva. Esse é um fator biológico. 


Conscientemente queremos a mudança, mas há um algoritmo inconsciente que nos mobiliza a evitar toda essa mobilização dos circuitos neurais. Uma vida inteira fortalecendo circuitos neurais que se opõem a toda e qualquer mudança. Novidades nesse caso, podem não ser bem vindas. 


A mudança envolve uma intrincada rede em nosso cérebro que nem sempre temos acesso consciente. Mudar é aprender. O esforço inicial rumo à mudança representa sempre um alto custo energético. Basta lembrar das aulas de física que trata do esforço inicial para movermos um objeto qualquer. Após o movimento ter sido iniciado, o esforço será menor para mantermos o objeto em movimento.


Desconfortáveis e ao mesmo tempo acomodados, resistimos às mudanças. De alguma forma nos tornamos emocionalmente  dependentes do "status quo" (estado atual), e assim, preferimos ficar como estamos. Embora o desejo latente rumo à mudança se manifeste de tempos em tempos.


Entre o topo e o primeiro passo, há um caminho a ser percorrido, há obstáculos que devem ser superados. Muitos fatores podem dificultar, impedir a mudança desejada, além dos já mencionados. 


O pontapé inicial nunca é tão simples. Precisamos antes buscar compreender o que nos impede, o que está a dificultar as mudanças necessárias e desejadas. Falta de confiança e disciplina, medo do desconhecido, procrastinação, conformidade? O porto seguro, às vezes, parece mais atraente, e assim, observamos o tempo passar sem sequer sairmos do lugar, sem nenhum movimento rumo à nova conquista.


O mais difícil na mudança talvez seja fazermos novas escolhas e partimos para a ação. É tão difícil porque deixar de formular os mesmos pensamentos que levam às mesmas escolhas de sempre é desafiador. Preferimos velhas experiências que nos confirmam as mesmas emoções já conhecidas e delas nos tornamos dependentes.


Esse vazio entre o velho e o novo eu gerado na mudança é desafiador. Inconscientemente rejeitamos a mudança, e então, racionalizamos, justificamos,  apresentamos diversos porquês para nos mantermos inertes. "Isto não me parece bom, sinto-me mal, não me sinto muito bem, não é para mim, deve haver um jeito mais fácil". Esses são alguns argumentos. 


Dor e desconforto. Assim se apresenta o primeiro dia na academia. Isso é tudo que não queremos. E os próximos dias seguem o padrão. Se não houver foco e disciplina, a desistência chega a passos largos. Esse padrão se apresenta quando a pessoa resolve emagrecer, quanto tenta melhorar suas noites de sono reparador, mais forte ainda, quando tenta investir em relacionamentos mais equilibrados, eficazes,  prazerosos e saudáveis. Abrir mão de certos hábitos já conhecidos não é fácil. Há sempre algo dizendo que não vale a pena. Se há custo energético envolvido, se há esforço, a tendência é tentar permanecer como está, sem a mudança desejada e tão necessária.


Quando se trata de mudanças, os conselhos não são bons conselheiros. Prestamos atenção às ações, aos resultados, mas pouco atenção é dada aos conselhos recebidos. A mudança precisa partir de dentro para fora, e não o oposto. Mudanças envolvem escolhas, não é possível viver sem fazer escolhas. Quando não fazemos nossas próprias escolhas, alguém estará sempre pronto a nos impor as escolhas dela.


São 35 mil escolhas, decisões que tomamos todos os dias, dizem os estudos. Um número espetacular. Porém, desse total, pouquíssimas decisões e escolhas são conscientes. São escolhas automáticas, praticamente sem esforço algum. E gostamos disso, nosso cérebro também, economiza muita energia. Isso porque, quando iniciamos um novo aprendizado, muita energia é mobilizada. Mudanças de hábitos são aprendizados. Desta forma, mobilizamos uma rede neural muito maior. Após aprendermos, aí sim, no automático as coisas ficam mais simples. Agora nós tornamos especialistas. Enquanto isso, a resistência à mudança é o padrão.


Quando nos propomos a fazer mudanças, alguns passos podem ser úteis.


Alguns passos úteis rumo à mudança:


1- Identificar onde nós estamos e aonde queremos chegar. O que somos e o que queremos nos tornar.

2- Datas factíveis - determinar um prazo, uma data, tempo que será desprendido rumo ao objetivo esperado.

3- O melhor dia para iniciar uma mudança, em especial mudança de hábito, é sempre hoje. 

4- Planejamento. Sem um plano a mudança se torna difícil, sem rumo.

5- Buscar ajuda, alguém que possa acompanhar as mudanças. 

6- Comemorar os pequenos avanços. 

7- Não transformar a mudança em um esforço estressante. Foco nos resultados, no benefício a ser alcançado, ajudam bastante. 

8- Parar com as culpas e as desculpas. 

9- Encontre os principais porquês, os motivos, a razão da mudança desejada e seja feliz. 

10- Ação - Talvez seja a ação o passo mais importante. Boas ideias sem ação valem tanto quanto nenhuma ideia. A nossa atitude diante da mudança desejada terá que mudar também, sem ela, nada acontecerá.


A partir da autoconsciência da necessidade da mudança, tudo se torna mais claro, e assim, também fica mais fácil colocar em prática o desejado projeto da mudança.


Muitas vezes a mudança começa mudando o ambiente. Quem quer perder medidas, fazer uma educação alimentar equilibrada e saudável, não pode caminhar junto daqueles que destoam desse objetivo. Isso serve para os exercícios físicos também. Andar com quem já desenvolveu o hábito da prática dos exercícios irá facilitar a caminhada. Relacionamentos saudáveis exigem o distanciamento dos relacionamentos tóxicos, e esses não são poucos. As redes sociais estão cheias deles. É preciso aprender a proteger as próprias emoções. A resposta aos estímulos que vêm do exterior é que mudam o nosso interior. Enquanto não nos sentirmos firmes nas respostas a tais estímulos, o distanciamento dos ambientes estimulantes e tóxicos pode ser uma enorme vantagem.


O cérebro é campeão de todas as categorias de resposta biológica às vivências, pois em algumas horas pode modificar sua biologia de modo duradouro. [...] A biologia, tal como a mente, alimenta-se do ambiente. (Pierre Piazza, 2021).


A memória associativa pode ser um obstáculo rumo à mudança. Por isso, mudar os ambientes nos leva a novas e diferentes escolhas. 


O mesmo restaurante muitas vezes nos leva a pedir o mesmo prato de sempre. A conversa com as mesmas pessoas nos leva aos mesmos temas. Nosso café da manhã em nossa casa, quase sempre acompanha os mesmos ingredientes, porque o ambiente é o mesmo. A memória associativa está em pleno funcionamento, e isso nos faz caminhar pelo mesmo trilho como sempre o fizemos. Novos ambientes nos levam a novas escolhas. Devolvemos novos hábitos e novas crenças serão fundamentadas.


A ideia é assumirmos o controle e sairmos da condição de refém do nosso passado, das mesmas emoções, das memórias associativas que nos desviam da nova rota planejada. 


Era só uma ideia, um pensamento.


Uma ideia; um pensamento; um primeiro passo seguido de outros; um quilômetro a mais, movimento contínuo. Juntos, podem nos levar até onde alcançar a imaginação.


Era só uma ideia. De repente saiu do mundo da imaginação. O primeiro passo em movimento contínuo nos levou aonde sequer teríamos imaginado chegar. Nosso Everest de cada dia. De Polo a Polo. Estrada que leva, estrada que traz.


Pequenas ideias em movimento equilibrado têm esse poder, se agigantam, se tornam geniais. Por isso, a realização de um único pequeno sonho faz brotar centenas, milhares de outros ainda maiores.


A perspectiva explica muitas coisas, basta atenção. Mudar o foco, a posição, a distância, e logo o que era insignificante e disforme pode facilmente assumir uma forma definida que nos servirá de guia.


Os desafios nos movem, eles são aliados, jamais adversários. 


Quais são nossas grandes ideias que irão transformar nossas vidas hoje?


Boa sorte!


Waldez Pantoja

Especialista em Neurociências Clínica 

Posso graduado em Nutrição e Síndrome Metabólica