domingo, 22 de setembro de 2019

O que ou quem controla sua mente?


A pergunta quase sempre rende uma mesma resposta: "eu mesmo controlo minha mente". De certa forma é isso mesmo. Sabendo que todas nossas escolhas partem da nossa própria mente. Nós somos nossa mente, nosso corpo, nossos pensamentos, nossas memórias, nossas experiências. Não há como nos isolarmos de nós mesmos.  Mas, daí dizer que temos total controle consciente sobre essas escolhas, a afirmação é passível de análise.

Quase todas as pessoas em todos os lugares do mundo "civilizado", começam o dia quase da mesma forma. Higiene pessoal, alimentação, escola, trabalho e às vezes lazer. Previsão fácil de ser demonstrada. Os materiais de higiene quase sempre são os mesmos; os alimentos têm quase todos a mesma base; as salas de aula, quase todas nos mesmos moldes; o trabalho, as horas, início, término, quase sempre obedecem uma mesma linha, inclusive o salário comum a todos, assim como os gastos também.

O que muitos não sabem é que, muitas das nossas escolhas são quase sempre influenciadas. Spinoza dizia, "os homens em geral acham que são livres porque escolhem entre possíveis, mas desconhecem as causas pelas quais são levados a escolher, e por isso lutam por sua servidão como se fosse por sua liberdade". Somos conscientes de nossos atos, mas quase sempre inconscientes das causas que os determinam.

Estamos a cada dia nos tornando menos conscientes e mais autômatos. Quase tudo no automático. Dirigimos o carro e nos alimentamos sem muito pensar. A Net Flix nos indica que filmes assistir, para isso, utiliza mecanismos automatizados. A Amazon também faz isso, assim que alguém acaba de ler um livro, há uma indicação de outro com base naquilo que eles imaginam termos gostado, algo relacionado. Os algoritmos não param, são incansáveis, trabalham dia e noite para evitar que pensemos. Estamos terceirizando muito daquilo que nos caracteriza como humanos, a nossa a capacidade de pensar, idealizar, refletir, comparar. Está quase tudo pronto, basta um click.

Fazer uma pesquisa no Google irá resultar em indicações do que parecem ser as melhores para nós. Cada vez que acessamos a rede, lá está um lembrete de nossa busca anterior, até nos familiarizarmos, e esta passa a fazer parte da limitada opção de escolha, tudo muito bem segmentado. "Este é o produto ideal. Compre, aproveite esta promoção, somente até hoje". Que sensação horrível esta de que nosso tempo está acabando. Talvez nosso bem mais precioso, o escasso tempo.

Qual gema do ovo nos parece mais saudável, mais nutritiva? Aquela bem amarelinha, certo? Assim que ovo está na frigideira, identificamos aquela marca para não nos esquecermos da próxima vez que formos ao supermercado. Ovo nutritivo e apetitoso. A gema amarelinha realça até o sabor. O que muitos não sabem é que aquela gema amarelinha, visualmente atrativa, tem um pigmento proposital colocado na ração da ave e nos induz a comprá-lo da próxima vez.

Aparelhos e dispositivos leves nos dão a sensação de coisa descartável, de baixa qualidade. O que faz a indústria? Sabendo disso, adiciona peso, uma lâmina de metal sem nenhuma utilidade funcional. Agora sim, podemos comprar; o que pesa mais é  melhor, quando na verdade o interior é quase sempre igual, adicionando apenas uma marca muito bem trabalhada e embalagem altamente elaborada. Cor, forma, tipo de fonte, cheiro, e assim somos mais uma vez direcionados à uma escolha que pensamos ser genuinamente racional. Emoção ativada. Escolhemos o melhor, ledo engano.

Mais caro ou mais barato? Associamos produtos mais caros com melhor qualidade. Um experimento com vinho deixa isso bem claro. Duas garrafas com rótulos diferentes contendo o mesmo vinho, com preços também diferentes, o mais caro apresenta melhor qualidade, melhor sabor para os degustadores. A influência do preço e embalagem.

O que as grandes marcas têm em comum? Talvez seja o controle social mesmo. Direcionando e fazendo com todos nós sejamos seres previsíveis, desta forma, os processos industriais, bens e serviços são agilizados, e, as mentes se tornam mais maleáveis e dirigíveis.

Diante de tanta influência que mal nos damos conta, onde fica o chamado livre-arbítrio? Talvez o termo necessite de um ajuste, não mais tão livre assim, apenas arbítrio; a capacidade de fazermos escolhas, não 100% livre, porque quase todas elas sofrem influência desconhecida e inconsciente.

Armas nucleares? Esqueça!



Talvez armas muito mais potentes estejam sendo construídas, e não por mentes tão brilhantes. Nós, os conectados, podemos estar contribuindo com essa construção. 

A Inteligência Artificial está em curso, e, a cada acesso na rede mundial, a internet, um linha de comando é adicionada. Estamos cada dia mais dependentes, sendo preparados para em breve, respondermos a comandos automáticos, os famosos algoritmos. Em parte, isso já ocorre. Confiamos muito mais nas dicas da voz melosa do GPS, do que em nossa própria intuição. E naturalmente, na maior parte das vezes, a voz tem razão. 

Tentei discordar da voz, e meu percurso levou 13 minutos a mais, mesmo sabendo que o trajeto era menor em quilômetros. Eu não contava com a onisciência da voz, que sabia de um enorme engarrafamento que eu desconhecia. 

Estamos de alguma forma terceirizado nossas habilidades cognitivas. Não mais memorizamos números de telefones, não há razão para isso. Tudo está armazenado na memória do celular. Quase não nos exercitados, ainda mesmo que uma ou duas horas gastas na academia, passamos a maior parte do dia fisicamente inertes.

Em breve, quem sabe, o domínio da inteligência artificial, seja capaz de estabelecer sua ditadura. Um processo em curso, sequer conseguimos percebê-lo. 

Com quem ou com o que estará o poder?

"Vou te dar um conselho"


Não são poucos os que querem nos dizer o que fazer, o que pensar, como fazer, como deveríamos nos sentir, como agir diante de uma determinada situação. Há conselhos para tudo.

O discurso é sempre algo recheado e acompanhado de inúmeras "verdades". Tais pessoas citam até exemplos, e nós, quase sempre damos credito, aceitamos que aquela pessoa realmente tem dentro de si todos os valores propagados. 

Infelizmente, sabemos que, pregar santidade, não torna ninguém santo, falar de bondade, não importa a profundidade, não o torna bom; falar ardentemente de fidelidade, não o torna fiel;  falar da injustiça dos demais, não o torna justo.

São as ações, aquilo que se faz é que deve ser analisado. Nem sempre o que se diz é o que realmente conta. Ainda assim, o contexto também deve e precisa ser analisado.

O importante é não nos deixarmos enganar com o entusiasmo, otimismo, firmeza, eloquência com que muitos defendem aquilo que jamais praticam. Retórica!